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Mercado de fertilizantes em 2023: melhores logísticas devem reduzir preços no cenário mundial

Após dois anos com altos preços dos fertilizantes, os produtores brasileiros começam a enxergar uma perspectiva melhor em 2023. Melhorias na logística marítima, principal modal de transporte desse material, além de fornecedores localizados em áreas de baixa possibilidade de conflito e das entregas russas mantidas apesar da guerra com a Ucrânia foram um cenário propício para a redução no valor do insumo. A informação foi repassada no episódio de estreia da nova temporada do podcast “Da Central para o Campo”. Com um cenário mais moderno e uma nova abordagem dos assuntos ligados ao agronegócio nordestino, o audiovisual completa um ano atualizando os produtores sobre novas ferramentas e tendências do mercado. 

No episódio disponibilizado no último sábado, no canal @CentraldeAdubosoficial, no YouTube, o tema tratava exatamente sobre os possíveis cenários que influenciam o preço dos fertilizantes. Com altas expressivas nos últimos dois anos, o insumo passou por uma série de restrições, que começaram na pandemia da covid-19. 

“O mercado de fertilizantes está conectado com diversos  outros mercados internacionais, principalmente o Brasil, que é um importador muito grande de fertilizantes. Se a gente considerar o nosso consumo anual, de 85% a quase 90% dos fertilizantes consumidos no Brasil vêm do mercado internacional. Então, a nossa realidade tem muito de uma dependência, inclusive, de toda a cadeia de suprimentos internacionais. E, quando falamos em cadeia de suprimentos, é um termo muito utilizado também no mercado principal supply chain, e ela foi, de uma maneira geral, bastante impactada, principalmente em termos logísticos durante a pandemia desde 2020”, explicou Gabriela Fontanari, especialista em inteligência de mercado da Yara (cenário internacional).

Prejuízos com a covid-19

As medidas restritivas paralisaram os portos, prejudicando a logística necessária para a importação dos insumos nos volumes necessários para a nossa produção, pressionando os valores no mercado. “Principalmente, porque, quando estourou o coronavírus na China, quando tivemos os lockdowns, as medidas de restrição de movimentação social, isso impactou de maneira muito significativa na questão dos portos. Tivemos travas em portos da China que pararam de funcionar. E como ela é um importante player importador e exportador de diversos produtos, principalmente os commodities, isso acabou, inclusive, travando navios, tanto de container – o que impactou o mercado de frutas etc. – quanto os navios de granel, prejudicando desde os fertilizantes aos grãos. Então, houve o impacto por segurarem esses navios, deixando uma menor disponibilidade, que acabou acarretando em filas de espera em portos internacionais não só no Brasil, mas na Europa, nos EUA e, assim, houve um agravamento das questões logísticas”, completou Fontanari.

Guerra da Ucrânia

Após o recuo dos casos de covid-19 no mundo, a guerra da Rússia contra a Ucrânia trouxe novas incertezas. “Isso também incidiu nos preços dos fertilizantes, porque ainda durante um ano de pandemia eclodiu toda a questão geopolítica na Europa, no início de 2022, que acabou agravando alguns cenários que já haviam sido construídos nestes dois primeiros anos de pandemia. Então, ainda tivemos esse fator agravante, que foi a guerra na Ucrânia”.

E, quando falamos da guerra entre importantes regiões produtoras de fertilizantes, temos também fornecedores de matérias-primas para a produção desse material. “Vai muito além disso. Eu bato muito na tecla da cadeia, mas a gente tem que lembrar que, por exemplo, os fertilizantes têm a sua base de custos da produção das commodities energéticas. Os nitrogenados, por exemplo, como uréia, o sulfato, o nitrato e que acabam gerando o ponto de N das misturas, como a gente conhece da linha Yara inclusive, tem como base do custo de produção a própria questão do gás natural que produz a amônia, o nitrogenado, então, quando falamos nesse cenário dos últimos anos, conseguimos entender o que está acontecendo agora em 2023. A própria questão da guerra da Ucrânia encareceu bastante o gás natural. E, consequentemente, você teve o aumento dos custos para produzir todos esses produtos”. 

Em meio a isso, temos a reincidência das infecções da covid-19 na China. De acordo com a especialista em inteligência de mercado da Yara (demandas), Juliana Trigo, a expectativa quanto aos dados da economia chinesa, previstos para divulgação nos próximos dias, deve clarear essa projeção de preços desses insumos em 2023. 

“Estamos falando de praticamente dois anos de preços de fertilizantes altos. Aí, a partir de outubro de 2022, a relação de troca melhorou. Quando falo da relação de troca, estou relacionando quanto que o produtor precisa desembolsar de sacas para comprar uma tonelada de fertilizante e isso começou a melhorar a partir do final de agosto do ano passado, Já em outubro, a relação de troca ultrapassou 2021. Então, tivemos o aumento dos fertilizantes iniciando em junho de 2021, seguiu por 2022 e, mais para o final do ano, tivemos essa melhora nos preços internacionais. Hoje, estamos com uma relação de troca bastante positiva para o produtor, o que é um incentivo para que ele trave as compras de fertilizantes. Assim, a gente vê um cenário para 2023 e, consequentemente, para a safra 23/24, bastante positivo”, analisou Trigo.

Fornecedores reais

Entretanto, Gabriela Fontanari reforçou que a China não é a principal exportadora de fertilizantes para o Brasil. “Ela exporta, sim, alguns produtos, principalmente sulfato, os nitrogenados e alguns outros produtos de fosfatados, como o SSP ou super simples, o triplo sulfato também, mas a China não é o principal exportador de fertilizantes para o Brasil. Então, caso você não tenha uma recuperação do mercado chinês ao ritmo que realmente é esperado, isso não impactaria de maneira tão significativa assim a nossa realidade, a realidade do produtor, do fazendeiro brasileiro. Tem outras regiões que têm um impacto um pouco maior”. 

Ainda segundo a especialista, a região do Oriente Médio e norte da África tem um peso maior nesse fornecimento. “Por exemplo, no mercado de nitrogenados, o que nós importamos para o Brasil vem de países do Oriente Médio e do norte da África (Catar, Omã, Nigéria), que, muitas vezes, não estão muito no foco das notícias, mas são os principais exportadores desses produtos para o país. E hoje não enxergamos tantos problemas geopolíticos nessas regiões que venham decorrentes da covid, por exemplo. Quando tratamos de fosfatados, Marrocos, Estados Unidos e outros países da Ásia e a própria Rússia são importantes exportadores para o Brasil. Então, outras regiões têm um impacto muito mais significativo na nossa matriz de importação do que a China especificamente. A Rússia é um importante exportador de fertilizantes, mas, até então, não se viram impactos tão significativos assim nos volumes vindos para o Brasil”.  Por isso, a expectativa sobre os avanços na logística marítima deve aliar a pressão no mercado de fertilizantes. ” O ano de 2023, quando olhamos para a questão de perspectivas, vai ser um ano muito mais ditado novamente pela logística, onde se enxerga um quadro de melhora, tanto na disponibilidade de navios, quanto de containers, inclusive na categoria hortifrúti. Por isso, a expectativa é que, com a maior disponibilidade de containers, haja redução nos preços dos fretes marítimos com um quadro de tendências com mais ofertas de navios. E na questão logística, onde se espera uma melhora no quadro e também da demanda. Portanto, não só se espera uma recuperação da demanda de consumo de fertilizantes no Brasil, como também de outros países importadores.(…) Então, se o Brasil tem uma perspectiva de aumento de consumo de fertilizantes em 2023, EUA  e Índia também apresentam este quadro. Significa que, quando nós precisarmos importar, trazer esses fertilizantes para o Nordeste de mais regiões produtoras de alimentos, vamos competir com esses dois países pelos mesmos volumes. E é aí onde estará o pulo do gato em 2023. Se esses países vão vir mais fortes ou se realmente você vai ter condições climáticas que vão impactar na safra deles, o que vai impactar no consumo deles de fertilizantes em 2023″, pontuou Fontanari.

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